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sábado, 10 de novembro de 2012

Relance



A sombra do que não foi à frente.
A luz do que ainda virá, persistente.
A veste escura da pior morte:
o manto que cobre o desejo da sorte.
A porta que leva aos caminhos da rua:
o vento que toca a pele sempre nua.
Entre idas e vindas eu vou.
Entre vindas e idas eu sou.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Um sábado qualquer





Pela passarela passou sozinha. Não era uma top model; apenas dirigia-se para a estação do metrô. Por alguns segundos, teve a companhia de uma chuva suave. Essa tocou o seu rosto delicadamente (melhor do que muitos homens o haviam tocado). Girou a sua sombrinha para deixar cair as pequenas gotas daquela amistosa chuva que, naquela altura, já havia partido. De repente, vislumbrou um céu indeciso que se abria na Via Expressa. Parou. Fotografou. Partiu. O restante do caminho o trem urbano já conhecia.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Cigana

O chá esquenta o frio do peito.
O vento acaricia o calor da alma.
A claridade ilumina até o menor defeito.
O destino se perde entre as linhas da palma.

Aberta.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Distúrbio


Ela atirou.

Inalou a pólvora
como se fosse ópio.

Ensaiou um suspiro.
Pouparei os detalhes sórdidos.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Quando morri pela segunda vez



Afirmação?
Pergunta?
Confundo pontuações.
Já vi ponto final em começo de frase.
Já vi exclamação abrindo parêntese.
Não a vi fechando-o.
Isso tudo aconteceu quando morri
pela segunda vez.
Sem reticências.
Ferida por interrogações.
Só voltei por uma razão:
do meu epitáfio,
retirem a pontuação.

Deixem somente a poeira.

                                                                                  


quarta-feira, 18 de julho de 2012

Chama (me)


A carne fria.
O espírito quente.
Anestesiada a angústia.
O olhar dormente.

A paisagem cinza.
O caminho escuro.
Acaracia-me, ó brisa.
Guia-me para o que procuro.

Minhas mãos tremem.
O fervor é interno.
Meus medos procuram
o calor deste inverno.

domingo, 8 de julho de 2012

Vírus


- Ela morreu.
- De quê?
- De amor.
- Por quem?
- Por mim.
- Não acredito.
- Eu juro.
- Amor não mata.
- Mata e é viral. O médico me deu três dias de vida.


"Porque não é pela via da linguagem que eu hei de
transmitir o que em mim existe. O que existe em mim não há palavra que o diga"

Antoine de Saint-Exupéry