Tempo infinito.
O dito pelo não dito.
Repetimos a mesma desculpa.
Repetidamente a mesma culpa.
Conheço a nossa redenção.
Sábia, ela não nos estende a mão.
Procuramos a mesma saída.
No caminho encontro-me perdida.
Assombra-me um segredo.
Covarde, evito o teu medo.
Escravizo-me pelo agora.
Mas sei que é preciso ir embora.
Teu olhar nunca me diz não.
Por nós eu peço perdão.
Finjo que nada sei.
Convenço-me de que nunca te amei.
O pior dos exemplos.
A pior das escolhas.
O final dos tempos.
As palavras tolas.
O fim da linha:
Lá ela caminha.
Amei-te ao som da música.
Desejei-te ao som da música.
Beijei-te ao som da música.
Esperei-te ao som da música.
Chorei-te ao som da música.
Relembro-te ao som da música.
Como calar este meu coração?
Puseste-me em um altar.
Reneguei o posto.
Pintei o meu rosto.
Dei-lhe o meu pecar.
Não há penitência.
Não há pertinência.
O inferno na terra é o amar.
Num caminho estreito calculo os meus passos.
Num caminho longo estimulo os impulsos.
Na ida e na volta levo-te, intruso.

Do momento restou a esperança.
Da tristeza aflorou a lembrança.
Do olhar faltou o caminho.
Da saudade construiu-se o ninho.
Da dúvida sentiu-se o remorso.
Do querer restou o "não posso".
A vidraça embaçada.
O sentimento claro.
A vista descansada.
Se corro, não paro.
O frio me sente.
Meu calor o desmente.
A vontade me empurra.
Com ela, sinto-me segura.
"Porque não é pela via da linguagem que eu hei de
transmitir o que em mim existe. O que existe em mim não há palavra que o diga"
Antoine de Saint-Exupéry