Eu conheço o inverso das suas palavras. As afirmativas das suas negativas. As vírgulas do seu ponto final. As exclamações das suas interrogativas e as interrogativas das suas exclamações. Ouço a ausência em suas frases. Observo o improviso da sua coesão. Reconheço a sua ambígua coerência. Encaixo-me entre os seus parêntesis. Às vezes procuro alguma preposição que nos una. Vou mais longe e anseio por dois pontos que nos expliquem. Espero que a primeira pessoa do singular se torne a primeira pessoa do plural. Finjo que sou o seu objeto direto. Tento esquecer que você é um sujeito oculto. Maravilho-me pensando em metáforas. Reconheço a sua voz, sempre passiva. Imagino-te como a minha oração subordinada. Defino-te como o meu artigo indefinido. Finjo que o seu nome não se substitui por um pronome. Tento esquecer as suas reticências. Perco-me na nossa desconhecida gramática. Um dia aprenderei a conjugação do seu verbo.
Não vejo as nuances. Visto-as. Matizo-as. Misturo o branco da paz com o negro do luto (mas não visto o cinza, apesar de conhecê-lo). Enfeito-me com uma echarpe vermelha. Atenciosa, essa empresta a sua cor para as minhas iras (nem sempre escarlates). Às vezes, perco-as no azul místico que oscila entre as cores do oceano dos teus olhos (que não são azuis). De repente, ao regressar, incorporo-me de todas as outras cores. Eu: aurora corporal.
As palavras caladas falam.
Os olhares desviados intimidam.
As verdades escondidas esclarecem.
Os gestos contidos se mostram.
Os beijos esquecidos relembram.
Os abraços perdidos se encontram.
A embriaguez desvela a lucidez.
O medo engana a certeza.
A negação confirma o contrário.
O que é mostrado se esconde.
As crenças se desmentem.
O que é completo se desfaz.
A razão é a loucura.
O fim é inacabado.
As mais aromatizadas cores.
As mais sonoras flores.
Os mais saborosos amores.
O acariciar das dores:
o mais sinestésico dos ardores.
“If the doors of perception were cleansed everything would appear to man as it is, infinite.” [1]
Se as portas da percepção estivessem limpas, tudo apareceria para o homem tal como é: infinito. Não havia tempo. Não havia dor. Só havia o necessário. Nem mesmo os caminhos cruzavam outros caminhos. As palavras não ecoavam. Não havia culpa. Não havia nem mesmo o verbo haver, com toda a sua impessoalidade. Não havia sorte, não era preciso. A palavra “não” era desconhecida. A palavra “medo” seguia o rastro dessa. Não havia lucidez. Só havia o momento. Não era preciso alegria, não era preciso senti-la. Não existiam mitos. Não existiam crenças. Não havia entrada. Não havia saída. Não existia o ter. Só bastava ser. Então existiria tudo. Existiríamos todos.
[1] William Blake. “The marriage of Heaven and Hell”.
Nem sempre encontramos caminhos.
Nem sempre nos vemos sozinhos.
Nem sempre a mentira é a culpa.
Nem sempre aceitamos a desculpa.
Nem sempre as palavras falam.
Nem sempre os sentidos calam.
Nem sempre o olhar encalça.
Nem sempre a verdade disfarça.
Nem sempre nos aceitamos.
Nem sempre nos concretizamos.
Nem sempre a alma vive.
Nem sempre a fé sobrevive.
Nem sempre nos extinguimos.
Nem sempre nós existimos.

Os fogos de artifício a fizeram sonhar. As diferentes nuances ficaram pintadas em seu rosto. A tristeza foi-se embora, apagou-se. As luzes dançaram sobre o seu corpo. Toda a sua amargura fora iluminada. Não consigo descrever o brilho que havia em seus olhos. Ela nunca foi tão bonita. Ela nunca sentiu-se tão bonita, tão colorida. Os fogos cessaram-se, mas ela continuou viva. Personificou-se o reflexo. Seu rosto iluminou-se de tal forma que senti-me cego. Ela parecia uma pintura impressionista. Impressionante. Nunca esquecerei aquele instante. Reluzente, ela iluminou-me os olhos, tocou-me os sentidos. Há tempos eu não via aquele brilho perdido. Iluminei-me com aquele sorriso. Da noite, fez-se o dia.
Finges que tudo passa,
que o esquecimento basta.
Finges que tudo foge.
Roubaste-me a minha sorte.
Fortalece-te o que me dói.
Brincas com o que me corrói.
A mentira virou verdade.
A pureza tornou-se vaidade.
A dúvida tornou-se a resposta.
Confesso: fizeste-me morta.
Mas não ergas o teu troféu.
Não há atalho para o céu.
Nem, tampouco, para o paraíso.
Onde escondestes o meu sorriso?
"Porque não é pela via da linguagem que eu hei de
transmitir o que em mim existe. O que existe em mim não há palavra que o diga"
Antoine de Saint-Exupéry